Friday, April 28, 2006

FRAGMENTO TILLICHIANO 1 [Fé e "Descrença"]

TILLICH, Paul. What is Religion? New York: Harper Torchbooks, 1969, p. 76-78. Tradução de Guilherme V.R. de Carvalho, abril 2006.

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Fé e Descrença ("Unfaith")

O direcionamento [directedness] para o Incondicional, do qual nós temos falado em conexão com a derivação do conceito da natureza da religião, nós chamamos fé. Fé é um giro em direção ao Incondicional, efetivo em todas as funções do espírito. A Fé, portanto, não é idêntica com qualquer uma das outras funções: nem com a função teórica, como supõe uma freqüente má compreensão, nem com a prática, como contende a compreensão oposta. A fé não é a aceitação de objetos incertos como verdadeiros; ela não tem nada a ver com a aceitação [intelectual] com com a probabilidade. Nem é meramente o estabelecimento de um relacionamento de comunidade, como a confiança ou a obediência, ou algo semelhante; antes, é a apreensão do Incondicional como o fundamento, tanto do teórico como do prático. Mas a fé também não é uma função especial, ao lado das outras funções. Ela vem à expressão unicamente por meio delas, e é a sua raiz. Ha um comportamento teórico crente [belief-ful] e prático crente, mas não há comportamento crente, como tal. Cada ato de fé é um voltar-se abrangente ou formador em direção ao Incondicional. A fé não é, nem mero assensus, nem mera fiducia. Mas em cada assensus crente [belief-ful] há fiducia, e em cada fiducia crente há assensus.

A fé é o direcionamento para o Incondicional no ato teórico e no ato prático. O Incondicional, como tal, entretanto, jamais poderia ser um objeto, senão apenas o símbolo no qual o Incondicionado é intuído e intencionado. A fé é a orientação para o Incondicional

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por meio de símbolos extraídos da ordem condicionada. Cada ato de fé, por conseguinte, tem um duplo sentido. Ela se dirige, de modo imediato, para um objeto santo. Mas não intenciona, no entanto, este objeto; antes, volta-se para o Incondicional, que está simbolicamente expresso no objeto. A fé alcança além da imediaticidade de todas as coisas, até ao fundamento e abismo sobre o qual elas dependem.

Em contraste com a fé nós temos a atitude incrédula [unbelief-ful]. A sua essência não é que ela falhe em reconhecer ou constatar uma ou outra coisa que seja objetiva; antes, sua essência está em que ela pára nas atualidades ou objetos em sua imediaticidade, em suas formas condicionadas, e não penetra até o seu significado fundante [grounding import]. A incredulidade é, assim, a marca da atitude tipicamente autônoma da cultura; mas o é apenas por intenção. Na verdade, cada ato cultural criativo é, também, crente; nele pulsa o significado do Incondicional. Doutro modo, ele seria, no fim das contas, sem signficado e sem importância. Mas a intenção cultural, enquanto intenção, é incrédula. É assim, mesmo quando está dirigida aos símbolos religiosos; pois ela não intenciona o Incondicional que rompe cada símbolo, mas antes intenciona a unidade do condicionado. Ela permanece preocupada com o mundo, mesmo quando fala de Deus. Deus é para ela uma síntese de formas imanentes, mas não o abismo do mundo. A dialética da cultura autônoma, portanto, é a de viver em fé, na mesma medida em que é criativa (mesmo se ela luta contra os símbolos religiosos, como, por exemplo o da "existência de Deus"), enquanto permanece, a despeito disso, incrédula com respeito à intenção (mesmo quando ela aceita que os símbolos religiosos, por exemplo, provam a "existência de Deus").
Em contraste com a incredulidade autônoma, a religião busca proteger, do criticismo autônomo, as formas particulares que chegaram a obter significância simbólica. Isso dá a elas uma validade heteronômica, e transforma a fé em um ato de ruptura das formas [form-shattering act]. A fé não é

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mais direcionada para o Incondicional por meio das formas condicionadas; antes, torna-se o direcionamento para formas condicionadas, vistas como incondicionadas. A fé Heterônoma também pára na forma condicionada; apenas deixa de interpretá-la como condicionada - que é o que faz a "descrença" autônoma - tratando-a, antes, como a portadora do Incondicional. A fé Heterônoma é fé, mesmo quando ela é demonicamente distorcida (veja abaixo), ao passo que a "descrença" autônoma nunca é demônica, mas também nunca é divina; antes, é a obediência vazia à lei (Gesetz).

Com este insight na essência da fé os problemas de "fé e conhecimento" e "fé e obras" são solucionados. Ambos os problemas emergem da oposição entre autonomia e heteronomia, e ambos são solucionados na teonomia. A fé não é uma cognição, ou uma ação, que pode existir ao lado da cognição autônoma e da ação, com a reivindicação heterônoma da absolutidade. Muito menos é uma cognição ou ação que possa ser fundamentada na cognição ou ação autônoma. Antes, é o direcionamento para o fundamento incondicionado de sentido, operativo em ambos e fundador de ambos. Cognição e ação sem fé são vazios e sem realidade. Uma fé, entretanto, que através do reconhecimento de uma forma definida, supõe-se ser baseada na cognição e na ação, é uma lei que é incapaz de realização, que destrói a veracidade [truthfulness] e o amor, e que finalmente leva ao comprometimento ou ao desespero. A Reforma emancipou o homem da lei da ação, presente na heteronomia católica tardia; mas, acompanhando a situação espiritual, mantém a "lei" do conhecimento intocada e inviolável. O protestantismo moderno tem libertado o homem da lei do conhecimento, mas o conduz à vacuidade da autonomia incrédula. O significado de uma teonomia vindoura pode ser este: ser crente na (e através da) forma autônoma do conhecimento e da ação.

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